Postado por Jornal Correio da Bahia em 30/05/2011 ás 18:05

Técnica treina adolescente para superar problemas e organizar a vida

Depois de queimar as pestanas para concluir o ensino médio, Marina ficou partida entre ficar com a família e ir à Inglaterra. Rafael acendia seu pavio curto e distribuía sopapos à menor provocação. Nelson tocava, pintava e sonhava com arquitetura, mas nunca decidia qual rumo tomar. Raab era arredia, calada e sofria para trocar duas palavras com os colegas de escola. De comum entre essas histórias há a angústia e o fato de estarem todas devidamente engavetadas na memória dos protagonistas. A arquivista que enterrou a indecisão de Marina, a mudez de Raab e a agressividade de Rafael é Ritah Oliveira.

Ela é uma coach– treinadora, em inglês. Formada em administração  e especializada em psicologia organizacional, Ritah criou o Coaching Teen - em português, treinando adolescentes. A técnica consiste em auxiliar jovens entre 13 e 23 anos a superar problemas   emocionais, se organizar, estabelecer objetivos de vida e descobrir aptidões. “É uma adaptação do coaching executivo. A partir dos mesmos pressupostos eu criei um formato adequado para adolescentes”, explicou Ritah, que patenteou o método. A primeira aproximação do método à realidade dos adolescentes é que as etapas do treinamento são realizadas na internet– principalmente pelo MSN, um programa de bate- papo virtual. Através de exercícios camuflados em jogos, Ritah traça o perfil do cliente e, com uma dinâmica de perguntas e respostas, ajuda o jovem a se compreender melhor e a superar os problemas. “A partir do momento que a pessoa se respeita e se conhece, ela passa a respeitar e conhecer os outros”, define.

TIMIDEZ Em 2009, Ritah fez um curso na Sociedade Latino Americana de Coaching (Slac), em São Paulo. Em seguida,começou a desenvolver o treinamento de adolescentes com a sobrinha, Raab Mercês Trindade, na época com 13 anos. “A escola dizia que ela tinha potencial. Mas vivia fechada,não interagia com ninguém e a mãe estava preocupada”, lembra. A mãe da menina, a contadora Irene Mercês, 60, sentiu avanços na filha dois meses após o início do treinamento. “A primeira mudança foi a capacidade de me comunicar, de expor minhas ideias e falar dos meus problemas”, conta Raab. Ela lembra que se sentia excluída e que achava que nenhum grupo a aceitaria. Agora, dois anos e algumas amigas depois, a adolescente se relaciona normalmente
com colegas, com familiares e ainda dá entrevista. “Antes ela não me trazia problemas da escola, não tinha confiança em mim. Até as notas melhoraram”, desabafa Irene.
INDECISÃO Marina tolerou sua indecisão até concluir o 3º ano do ensino médio,ano passado, e bater de frente comum impasse – prestar vestibular ou fazer intercâmbio. O pai indicou procurar uma psicóloga, e 30sessões e quatro meses  depois Marina estava embarcando para Brighton, na
Inglaterra, para estudar inglês. “Sempre fui muito indecisa e este problema não conseguia  resolver só. Minhas amigas falaram que eu mudei. Agora quero ir para Londres e estudar espanhol e   fotografia em Madri”, conta. O treinamento também  ajudou Marina a lidar com cobranças  afetivas com amigos e familiares. “Sempre achei que eu me dava muito para as pessoas e elas não me davam. Aprendi a respeitar o jeito de cada um”, diz.
COMPLEXO A amizade com a família de Ritah deu a Nelson de Oliveira Pereira, 22, um treinamento de cortesia. O mal que afligia Nelson é o conhecido complexo de ser complexo demais. Ele queria ser tudo - arquiteto, músico, serigrafista -, mas entre tantos desejos não conseguia focar
em nenhum. Nelson não cumpriu as seis etapas do treinamento, mas o que aprendeu lhe serviu para colocar as ideias no lugar.Hoje, ele divide seu tempo entre a montagem de uma oficina de
serigrafia - técnica de pintura de tecidos, principalmente camisas - e o violão. Nelson toca em bares à noite. “Aprendi a entender as situações da minha vida. A ter foco e não gastar energia à toa”,resume o rapaz. Uma das metas estabelecidas por ele após as conversas com Ritah é poder terminar o treinamento, que durou três meses.
 
Problemas comuns entre adolescentes
Muitos dos problemas enfrentados pelos jovens treinados por Ritah Oliveira se repetem na vida de outros adolescentes. O maior problema de Joana Dantas, 16 anos, é achar que é sempre o centro das atenções. “Onde chego, acho que está todo mundo me olhando”. Na sala de aula, ela prefere tirar notas baixas a revelar sua dúvidas. “Quero perguntar, mas começo a suar nas mãos”. Mayane Costa, 15 anos, sofre com a dificuldade de fazer amizade. Ela quer apoio, mas não quer se abrir com os pais. “Meus pais sentem e me procuram, mas eu acabo sendo grossa”. Diego Oliveira, 17, sofre com o pessimismo e a indecisão. Em ano de vestibular, fica ainda pior. “Sempre acho que tudo vai dar errado, que vou perder o vestibular”.
 
Treinamento adaptado
Ritah Oliveira criou o Coaching Teen a partir de métodos de treinamento já existentes,  principalmente o voltado para executivos. Como a linguagem do treinamento empresarial não serviria para os adolescentes, ela criou um formato mais leve e mais próximo à realidade dos jovens. “Criei um jogo de seis fases, que é uma adaptação de uma técnica que já existe. E o uso
da internet é porque o computador está dentro do ambiente deles”, explicou Ritah

Após uma conversa com os pais e com o adolescente, o primeiro passo de Ritah é definir o perfil do cliente. “Passamos um questionário, parecido com os de revistas de adolescentes, com perguntas que revelam o perfil da pessoa”, disse. Há perguntas como de múltipla escolha, como “maiô ou biquíni?”, “casa ou apartamento” e “dicionário ou internet?” e respostas por extenso sobre a família, por exemplo. Após definir o perfil do adolescente, Ritah opta pelo jogo que será base do processo. O Big Game é inspirado nas peças do jogo de xadrez. O Quiz Magic é pergunta e respostas. O Young Graduation é um jogo da velha. E o Team Power é feito em grupo, através de dinâmicas, mas Ritah ainda não trabalha com este método em Savador. Todas as sessões são feitas pela internet.

“É um jogo onde eu faço perguntas para ajudar o adolescente a compreender melhor ele mesmo. Não dou respostas, ajudo eles a encontrar”, resumiu a administradora. O treinamento consiste em seis fases. As sessões duram uma hora. “O adolescente pode repetir a fase e, se for preciso, esticamos o trabalho”, explicou.

A frequência das sessões também são flexíveis, podem ser semanais ou diárias, por exemplo. No final, o próprio clientes redige um relatório sobre as dificuldades enfrentadas e os resultados alcançados no treinamento. A coach tem16 clientes,
entre 13 e 21 anos. Três são de outro estado – dois de São Paulo e um do Maranhão. O  preço do treinamento varia de acordo com a região do interessado. Os nordestinos pagam R$ 150 por horas. Os demais, R$ 250.
 

 

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